CanvasFur · Capítulo 1 / 1
A Jornada de Cael
2942 palavras · 15 min de leitura
Luke FoxxyJá não conto o tempo pelas luas. Conto pelos cortes nas mãos, pelas crostas secas de sangue que se formam e racham de novo. Este carvão que risco no papel é tudo o que restou de uma fogueira apagada num posto abandonado. A capa do meu caderno é pele curtida de animal, costurada às pressas. As páginas são retalhos de mapas velhos, rasgados. Escrevo nas costas das linhas que indicavam rotas, mas as rotas já não existem.
Fugi da serra porque a serra gritava. Não era vento. Não eram pedras rolando. Era um grito abafado, contínuo, como se a própria montanha quisesse me chamar. Dizem que Mapinguari ronda os vales mais altos. Alguns afirmam ser um macaco prego assimilado, outros juram que é um espírito que caminha sobre patas de terra. Eu só sei que ouvi passos pesados atrás de mim quando não havia nada.
Os deslizamentos eram súbitos. O cheiro de pó me fazia tossir antes mesmo de ver a poeira. A cada curva, ossos. Ossos presos em raízes, ossos com musgo, ossos com pulseiras de couro apodrecido. Ali aprendi a correr sem destino. Não pensava em chegar a um refúgio, pensava em me afastar do som.
Nas madrugadas, a temperatura caía como lâmina. Minha pele ardia. E as veias luminescentes sob minha carne — minha maldição — brilhavam mais forte no frio. Um farol para quem quisesse me seguir.
Parecia que a serra queria me engolir. O vento soprava como boca. Às vezes, quando o silêncio vinha, era pior: silêncio absoluto, sem pássaros, sem insetos, sem nada. Um silêncio pesado, que fazia doer os ouvidos. Escrevo para não esquecer como era esse silêncio. Escrevo para lembrar por que segui em frente.
Eu sonhava com raízes. Raízes que se enrolavam no meu peito, puxando-me para baixo. Às vezes acordava com marcas nos tornozelos — talvez de cipós, talvez de delírio. Não sei se caminhei dormindo ou se algo me arrastou. Mas segui. Sempre segui.
Passei por ruínas antigas: galpões sem telhado, ossários a céu aberto, uma ponte de pedra partida no meio. Na parede de um galpão, um desenho infantil: um sol sorrindo, feito com tinta vermelha. Sob o sol, palavras que não entendi. Não parei para traduzir.
À noite, eu comia o que encontrava: frutas azedas que me queimavam a língua, água turva de riacho, restos de carne seca apodrecida. Cada escolha podia me matar. Mas a fome é uma faca que corta a cautela.
Depois de dias, vi fumaça no horizonte. Uma coluna fina, cinza, subindo para um céu avermelhado. Pensei que fosse gente. Corri. Mas quando cheguei, era um corpo queimando sozinho. Não sei quem acendeu. Ao lado, um caderno como o meu, só que em branco. Peguei-o e amarrei ao meu, costurando as páginas com corda fina diante do corpo frio. Não sei quem ele era, mas em sua memória, comecei a escrever mais.
Agora, ao relembrar, percebo que ali começou meu diário. Não mais como anotação de sobrevivência, mas como companhia. Se eu morrer, que fiquem estas linhas.
A paisagem mudou devagar: as pedras se cobriram de musgo, depois vieram as árvores, depois o escuro. Quando o primeiro tronco gigante surgiu, com raízes grossas como braços de gigantes, senti medo e alívio ao mesmo tempo. Medo do que não via. Alívio de não ouvir mais o grito da montanha.
Deixei a serra para trás com os pés feridos e os ombros queimados pelo frio. O chão aqui é mais macio, mas traiçoeiro. Tapetes de folhas secas escondem buracos, cipós, ossadas. O ar cheira a terra úmida e a outra coisa — algo doce demais para ser natural, um cheiro que fica preso no fundo da garganta. À noite, esse cheiro vira gosto metálico.
Logo no primeiro amanhecer ouvi o que parecia ser o balir de um bode. Um berro distante, profundo, que ressoou entre as árvores. Não parecia natural. Era mais fundo, mais longo, como se as próprias raízes da floresta estivessem berrando. Fiquei parado, o coração martelando no peito. Cada vez que o som ecoava, as veias sob minha pele brilhavam mais forte, como se respondessem.
Me afastando do som do balido, caminho horas sem ver um feixe de luz. A copa fecha o céu. Quando abro meu caderno e risco palavras, o carvão parece mais preto que nunca. Escrevo no escuro, confiando mais no tato do que nos olhos.
Foi numa dessas horas sem tempo que vi gente. Sombras deslizando entre as árvores. Primeiro pensei que fossem feras. Depois vi o arco. Vi a ponta da flecha. Um homem surgiu do nada, o rosto pintado de urucum, os olhos fixos em mim.
— Pare. — disse ele.
Levantei as mãos.
Eles me cercaram em silêncio. Eram cinco. Roupas de couro, colares de ossos. Nenhum gesto de pressa. Me examinaram como se eu fosse uma presa exótica.
O mais velho tirou de uma bolsa uma cabaça e me estendeu.
— Beba.
O líquido era espesso, amargo. Ardeu na língua. Quase vomitei. Mas bebi.
O gosto abriu minha cabeça. As árvores começaram a respirar. Vi a seiva correndo como sangue sob a casca. Vi olhos nas folhas. Um coro de sussurros me envolveu. Senti que a floresta me olhava.
Eles riram baixo quando larguei a cabaça.
— Você viu — disse o mais velho.
Não respondi.
Me deixaram ir, mas não sem aviso.
— Siga o curso do rio, mas não volte.
Depois disso, comecei a seguir sempre o som de água. O raciocínio era simples: se eu me perdesse, pelo menos teria o rio. Se o rio fosse largo, talvez levasse ao mar. E se houvesse mar, talvez houvesse refúgio.
Continuei. O berro do bode soava mais próximo a cada dia. Não via o animal. Via rastros — troncos riscados por garras, cipós partidos como se algo enorme tivesse passado. Uma vez encontrei um ninho feito de galhos entrelaçados com ossos humanos. Não sei se era abrigo ou armadilha.
Minha pele cheirava a suor e lama. As veias brilhavam azuladas. Às vezes, ao encostar nos troncos, eu sentia uma pulsação, como um coração gigante sob a floresta. Comecei a sonhar acordado. Falava sozinho. Escrevia frases quebradas. Trechos de música que não conhecia.
Certa noite, ouvi passos atrás de mim. Achei que fossem os caçadores. Mas não era passo de gente. Era arrastar pesado, como de um corpo muito grande. Corri até não aguentar. Quando parei, caí de joelhos numa clareira. À minha frente, um tronco oco, coberto de líquen. Do tronco saía um fio fino de fumaça azul. Senti o cheiro e lembrei do corpo queimando na serra.
“A mata também tem boca. A mata engole o que a serra expulsa.”
Dormia pouco. Sonhava mais. Nas minhas anotações, as frases se misturavam com desenhos: olhos nas árvores, raízes como mãos, flechas presas no nada.
Quando finalmente alcancei a campina, pensei que tinha chegado ao fim do mundo.
Saí da sombra da mata como quem desperta de um pesadelo e abre os olhos em outro.
De repente, o mundo se abriu diante de mim: horizonte sem barreira, céu amplo demais, vento correndo sobre a relva. As árvores ficaram para trás como colunas de um templo que desmorona em silêncio.
A planície parecia calma, mas não era. O espaço vazio me assustava mais que a escuridão da floresta. Na mata, pelo menos, havia onde se esconder. Aqui, cada passo era visível, cada brilho das minhas veias podia ser notado a quilômetros.
O chão era úmido de córregos que cortavam a campina como veias expostas. A água era clara, mas tinha gosto de ferrugem. Caminhei dois dias seguindo um desses fios d’água, sem saber para onde levava.
À noite, ouvi motores. O som rasgou o vento: ronco metálico, irregular. Deitei na grama alta, o coração batendo mais forte que as máquinas. Logo surgiram faróis. Motos. Seis delas. Homens armados, com roupas manchadas de óleo. Um deles carregava no ombro a pele de algum animal. Passaram sem me ver. O vento trouxe até mim o cheiro de combustível queimado.
Os locais chamam esses motoqueiros de Morubixabas. Guardiões da campina, diziam. Mas também mercenários. Caçam saqueadores, sim, mas não fazem nada de graça. Pergunto-me se me aceitariam, ou se me veriam como ameaça.
Talvez eu nunca saiba.
No dia seguinte encontrei rastros da presença deles: marcas de pneus na terra, uma fogueira recém-apagada, ossos assados até ficarem pretos. No meio dos restos, um pedaço de tecido vermelho com o símbolo de Taguapiranga bordado à mão. A tal “capital” da Costa Brava. Um lugar murado, cheio de gente.
Pensei em seguir as marcas. Quase fiz isso. Mas o medo me segurou.
A campina parecia tranquila demais. Mas logo percebi os sinais.
Paredes de pedra riscadas com insultos, ameaças de morte.
Carcaças de cavalos inchadas à beira do riacho.
E à noite, sempre ao longe, o som de tiros.
No quarto dia, vi fumaça subindo de dentro de um muro. Não entrei. Fiquei só observando de uma colina, como quem olha para um mundo do qual não faz parte. Era Taguapiranga. Casas alinhadas, cercas bem cuidadas, motos patrulhando.
Vi crianças brincando num pátio. Vi mulheres carregando baldes de água. Vi homens em roda, rindo alto. Tudo protegido por muros. Tudo inacessível para mim.
“Refúgio não é para os que brilham. Refúgio é para os que conseguem parecer normais.”
Continuei pelo campo aberto, sempre desviando dos patrulheiros. Dormia escondido em buracos de terra, em meio à cana-de-açúcar. O cheiro doce me embrulhava o estômago.
Às vezes acordava com o som de passos, mas nunca via ninguém. Talvez fossem batedores. Talvez apenas sonhos.
Certa madrugada, acordei com fogo no horizonte. Um celeiro ardia dentro dos muros de Taguapiranga. Vi a correria, gritos, gente tentando apagar as chamas. Por um instante, pensei em me aproximar, oferecer ajuda. Mas fiquei imóvel, só observando as chamas lamberem o céu.
Naquele fogo, entendi uma coisa: até os Refúgios ardem. Até dentro dos muros há medo.
Segui em frente. A planície se estendia sem fim, até que um cheiro novo veio com o vento.
Sal.
Água pesada.
O gosto do mar estava próximo.
O cheiro chegou antes da paisagem.
Um odor pesado, mistura de sal e podridão doce, como fruta esquecida no sol.
Segui o córrego até onde a água se espalhou em braços, e cada braço se perdeu em lama. O chão já não era firme: cedia sob meus pés, sugava minhas botas até o tornozelo. O ar parecia mais denso, mais pesado, como se fosse preciso mastigar antes de respirar.
As árvores enraizadas na água tinham troncos amarelados, cobertos por uma alga viscosa que brilhava sob a luz. Bastava encostar para que soltassem esporos dourados. No início, evitei respirar. Mas o brejo é paciente. Os esporos estavam em todo lugar, invisíveis, misturados ao vento.
Na primeira noite, sonhei acordado.
Vi dois mundos ao mesmo tempo.
O real — lama, raízes, caranguejos enormes que se moviam de lado, as garras como espadas.
E outro, sobreposto — um céu pulsante de cores impossíveis, figuras translúcidas caminhando sobre a água, luzes que sussurravam meu nome.
Meus olhos ardiam, mas não consegui fechar.
Encontrei um grupo de homens cobertos de pintura amarela. Andavam em fila, cada um segurando um galho entalhado em forma de espiral. Cantavam baixo, um cântico repetitivo, e não pareciam notar a diferença entre o mundo real e o outro. Me viram e sorriram. Não perguntaram quem eu era, nem de onde vinha. Apenas disseram:
— O Brejo já lhe conhece.
Fiquei com eles por uma noite. Beberam de um caldo de algas fervidas, e me ofereceram também. A primeira colher queimou a boca, mas logo senti calor no peito. Então vieram as visões.
Minha mãe novamente. Sempre ela. Mas dessa vez sua voz estava misturada ao som da água, como se fosse o próprio brejo que falava através dela.
— Você chegou até aqui, mas não deve parar.
Fui embora ao amanhecer.
O grupo me olhava de longe, acenando com suas espirais de madeira. Não me pediram nada. Apenas deixaram que eu fosse.
Caminhar no brejo é caminhar sobre o nada. A cada passo, você não sabe se o chão vai segurar ou engolir. Vi corpos meio enterrados na lama, preservados como se tivessem dormido ali há anos
Caranguejos dourados me observavam com olhos negros, imóveis. Alguns eram pequenos como cães. Outros, maiores que touros. Um deles se aproximou devagar, ergueu a garra como se fosse uma bandeira e estalou no ar. O som ecoou como trovão. Corri sem olhar para trás.
Passei dias sem saber se era noite ou manhã. O céu se confundia com o reflexo da água. Meus olhos já não confiavam na cor das coisas. Uma vez, vi o sol se partir em dois. Outra, vi a lua mergulhar no brejo e voltar com o rosto humano. Talvez tenha delirado. Talvez tenha visto.
Na última noite, antes de deixar o brejo, senti o peso das águas me puxando. Afundei até a cintura. Vi mãos brilhantes tentando me segurar.
“O Brejo não deixa partir. Ele guarda. Ele quer lembrar.”
Mas eu parti.
A lama me cuspiu de volta, e o cheiro mudou. O ar ficou mais leve. O horizonte se abriu novamente, e diante de mim surgiu a areia clara, o vento salgado e as canoas alinhadas na costa.
A lama se dissolveu em areia.
Foi como atravessar uma fronteira invisível: um passo atolado no brejo, o seguinte firme sobre a restinga.
Caí de joelhos, respirei fundo, e pela primeira vez em semanas senti o ar limpo do mar. O vento vinha forte, salgado, arrastando o cheiro da vegetação rasteira que se curvava como tapete sobre as dunas.
A Restinga Brava não era acolhedora. O solo rachado em alguns pontos revelava veios pretos, como cicatrizes queimadas. As ondas quebravam com fúria, arrastando troncos partidos e carcaças de peixes que brilhavam em tons azuis, restos da Assimilação.
O céu parecia maior, mas também mais ameaçador, sempre cheio de nuvens baixas.
Havia sinais de gente. Pegadas humanas na areia, recentes. Um barco encalhado com redes rasgadas. Dentro dele, penas de aves costuradas em cordas — oferendas, talvez. Alguém ainda vivia ou passava por ali.
Segui margeando a costa. A cada curva, o mar mostrava uma face diferente: tranquilo como espelho ou em revolta, cuspindo espuma negra. À noite, a maré subia rápido e eu precisava correr até dunas mais altas para não ser engolido. Dormia ouvindo o rugido constante das ondas.
Numa dessas noites, vi fogo ao longe, na areia.
Aproximei-me em silêncio, agachado.
Eram três figuras. Cantavam em volta de uma fogueira pequena. Tinham conchas penduradas no pescoço, que tilintavam com o vento. Jogavam ossos na areia e liam seus desenhos como se fossem cartas.
Não me viram. Ou fingiram não ver.
O fogo iluminava seus rostos, e por um instante pensei que fossem máscaras. Mas não: eram rostos pintados, metade branco, metade vermelho, com linhas negras cruzando os olhos
Um deles ergueu a cabeça e falou, sem me olhar:
— A maré já levou muitos como você. Corra antes que te leve também.
Não esperei. Afastei-me com passos rápidos, sem virar o rosto.
Na manhã seguinte, o lugar da fogueira estava vazio. Só cinzas espalhadas e as conchas, quebradas em pedaços.
Continuei.
O sol castigava. A areia queimava os pés. O vento erguia redemoinhos de sal.
“Aqui não se vive. Aqui se atravessa.”
E eu atravessei.
Depois de dias sem fim, a restinga começou a se estreitar. O mar de um lado, o brejo do outro. O horizonte já não era apenas água infinita. Algo se erguia além das ondas. Algo que não pertencia nem ao mar, nem à terra.
A primeira vez que vi, achei que fosse miragem: colunas enferrujadas, estruturas altas, luzes mortas piscando sob o céu cinzento.
Um corpo de ferro suspenso sobre o oceano.
A Restinga se afunilava até virar quase um fio de areia, e então só restava a água. O vento trazia espuma até meu rosto. A maresia ardia os olhos. Eu caminhava com dificuldade, pés afundando em areia molhada, mas não parei de olhar.
O mar estava inquieto quando a vi de verdade.
Lá, distante, erguia-se como um esqueleto de deus naufragado: a Ilha de Ferro.
Colunas retorcidas cravadas no fundo do oceano. Torres de ferro quebradas, cheias de ferrugem, mas ainda imponentes. Entre os arcos metálicos, sombras se moviam — ou talvez fossem apenas gaivotas. Não sei.
Havia luz. Uma, duas, fracas, intermitentes. Não era fogo. Era elétrica. Um brilho azulado, como o de um olho cansado que ainda insiste em se manter aberto.
Por um instante, esqueci o frio, a fome, a dor nos pés.
Ali estava a prova de que algo resiste além da terra.
Não sei se homens vivem lá. Não sei se máquinas ainda funcionam. Mas sei que alguém ou algo mantém aquelas luzes acesas.
Sentei na areia, a água molhando minhas pernas, e escrevi rápido, antes que a maré apagasse as linhas:
“A serra me expulsou.
A mata me perseguiu.
A campina me vigiou.
O brejo tentou me engolir.
A restinga quase me matou.
E agora o mar me chama.”
Penso nos caçadores da mata, nos devotos do brejo, nos motoqueiros da campina. Cada um com seu lar, sua fé, sua muralha. Eu não fiquei em nenhum deles. Talvez não caiba. Talvez eu seja feito para seguir adiante, sempre à margem.
O vento sopra mais forte. A noite cai.
As luzes da Plataforma piscam de novo, como se respondessem ao brilho das minhas próprias veias.
Sinto que há um chamado. Não sei se é promessa de lar ou de condenação.
Fecho este caderno com a capa molhada de maresia.
Se alguém o encontrar enterrado na areia, que saiba:
Eu caminhei até o fim da costa, e no fim não havia terra.
Havia ferro e mar.
E o horizonte aberto.
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